Cultura Amazônica

Ateliê 23 atravessa o Atlântico e leva teatro amazonense à Europa pela primeira vez

Companhia amazonense celebra 13 anos com pré-estreia internacional de “Fértil em Terras Áridas” em Portugal

O Ateliê 23 vai atravessar o Oceano Atlântico pela primeira vez. A companhia amazonense desembarca em Portugal para apresentar “Fértil em Terras Áridas”, espetáculo que marca a estreia internacional do grupo e integra a programação da “Todos São Palco – Mostra de Teatro Além do Equador”. As apresentações acontecem em Aveiro, no dia 25 de setembro, e em Coimbra, em 1º de outubro.

Realizada pela companhia portuguesa O Teatrão, a mostra ocorre entre 17 de setembro e 17 de outubro e percorre 13 cidades portuguesas com uma programação dedicada à produção teatral latino-americana.

A chegada do Ateliê 23 à Europa acontece no ano em que a companhia completa 13 anos de trajetória. Em cena, “Fértil em Terras Áridas” acompanha cinco bufões que retornam de uma turnê internacional e encontram a companhia da qual faziam parte dissolvida e o teatro onde trabalhavam demolido. Diante das ruínas, eles precisam descobrir como continuar criando.

A história também dialoga diretamente com a trajetória do grupo amazonense. O espetáculo nasceu de uma investigação sobre os desafios de criar, produzir, circular e resistir artisticamente na Região Norte, longe dos principais centros econômicos e culturais do país.

A estreia oficial de “Fértil em Terras Áridas” em Manaus está prevista para novembro. Antes disso, o espetáculo terá a primeira apresentação internacional em Portugal.

“Essa é a primeira vez que o Ateliê 23 vai se apresentar fora do Brasil, é uma conquista para celebrar muito. Um grupo de Manaus poder atravessar o oceano após 13 anos de trabalho, ainda numa experiência muito particular e muito linda, que é a estreia internacional de ‘Fértil em Terras Áridas’”, afirma o diretor e fundador da companhia, Taciano Soares.

O Norte atravessa o oceano

A participação na mostra portuguesa também amplia a presença da produção teatral da Região Norte em circuitos internacionais. Segundo Taciano Soares, a curadoria buscou, ao olhar para o Brasil, conhecer produções que estão fora dos principais eixos culturais do país.

“Eles olham para o Brasil e é a primeira vez que olham para a Região Norte. Eles perceberam como é grande esse discurso de que o Brasil não está apenas no eixo Rio-São Paulo ou no Sul. Estão olhando para as regiões Norte e Nordeste”, comenta.

De acordo com o diretor, o curador Jorge Figueira chegou ao trabalho do Ateliê 23 por meio de indicações de produtores de diferentes regiões do Brasil. Para Taciano, a oportunidade é resultado de uma trajetória construída ao longo dos anos, com participação em festivais, mostras, eventos e rodadas de negócios.

“É uma honra, um privilégio, a consumação de um trabalho de formiguinha que a gente tem feito, de participar de festivais, de eventos, de rodadas de negócios em todo o país. Mesmo que a gente tenha um elenco numeroso, que os nossos trabalhos sejam um pouco mais caros de circular, ainda assim a gente tem conseguido esse êxito de furar o custo amazônico, porque é muito caro sair daqui”, destaca.

“Fértil em Terras Áridas”

Com direção de Taciano Soares e dramaturgia de Francis Madson e Taciano Soares, “Fértil em Terras Áridas” utiliza a bufonaria, linguagem teatral marcada pelo grotesco, pelo deboche e pela sátira, para abordar estruturas de poder, hipocrisia social e contradições contemporâneas.

No palco, Carol Santa Ana, Eric Lima, Emily Danali, Francis Madson e Taciano Soares interpretam os cinco bufões. Sem o espaço que sustentava o grupo, eles passam a criar de forma independente a partir das próprias ruínas.

O espetáculo teve uma abertura de processo durante a Mostra de Teatro Águas de Manaus, em agosto. Em Portugal, o público terá contato com uma versão próxima da montagem que será apresentada oficialmente em Manaus.

Para Taciano, a experiência também representa uma novidade dentro do processo de criação da companhia: apresentar uma obra internacionalmente antes da estreia oficial em casa.

“Estamos extremamente ansiosos, não só porque é uma viagem internacional, mas pelo privilégio de fazer parte de uma programação tão criteriosa, selecionada, e fazer a pré-estreia. É a primeira vez que a gente faz uma pré-estreia de um espetáculo”, afirma.

13 anos de trajetória

A escolha de “Fértil em Terras Áridas” para marcar a estreia internacional também encerra uma trilogia iniciada por “Cabaré Chinelo”, em 2022, e continuada por “Sebastião”, em 2024.

As três montagens integram a pesquisa das Bionarrativas Cênicas, metodologia desenvolvida por Taciano Soares a partir de suas pesquisas acadêmicas de mestrado e doutorado. A proposta reúne histórias de vida, experiências biográficas, acontecimentos históricos e questões sociais na construção da cena.

“Cabaré Chinelo” recupera histórias de mulheres exploradas sexualmente em Manaus durante o Ciclo da Borracha e levou o Ateliê 23 a uma indicação nacional ao Prêmio Shell de Teatro, além de reconhecimentos no Prêmio Cenym de Teatro Nacional e no Festival de Teatro da Amazônia.

Já “Sebastião”, inspirado no livro “Um Bar Chamado Patrícia”, revisita memórias LGBTQIA+ e a boemia de Manaus na década de 1970. A montagem conquistou, entre outros reconhecimentos, o prêmio de Melhor Elenco no Cenym de Teatro Nacional de 2025.

Fundado em Manaus por Taciano Soares e Eric Lima, o Ateliê 23 chega aos 13 anos com mais de 30 obras criadas nas áreas de artes cênicas, música e audiovisual, além de uma trajetória de circulação por diferentes regiões do país.

Entre os trabalhos da companhia estão “Da Silva”, que aborda racismo estrutural e violência contra corpos negros; “Helena”, construída a partir da vida e das memórias de Helena Soares, mãe de Taciano; e “Ensaio de Despedida”, que posteriormente ganhou adaptação para o audiovisual.

No cinema, o grupo também desenvolveu “A Bela é Poc”, curta-metragem premiado na categoria de melhor atuação nacional no 8º Festival Internacional de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás.

A companhia integrou ainda circuitos como o Palco Giratório, do Sesc, e a mostra “A Ponte”, do Itaú Cultural, além de festivais e mostras realizadas em diferentes estados brasileiros.

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